8 de Dezembro de 1987
Querido Pai Natal!!!!
Espero que o Pai Natal esteja bem e que se encontre de saúde.
Eu tenho me portado bem e como a sopa até ao fim, todos os dias.
Bom, será melhor eu dizer a verdade! Tenho comido desde o inicio deste mês de Dezembro, mas juro que é a sopa toda.
Eu gostava que o Pai Natal me oferecesse uma boneca da barbie, a mala da barbie e o carro da barbie e ainda o jogo das pulgas que se esqueceu o ano passado.
Estou a escrevê-lo sem que os meus pais saibam, porque tenho uma dúvida sobre uma coisa. Desculpe algum erro!
Beijinhos da MC

O Pai Natal existe!!!!
Eu acredito contra tudo e contra todos que o Pai Natal existe!
Então, não tenho que acreditar????!!!!
Ele é tão bom para mim.
Dá-me tanta prenda, dá-me quase tudo o que peço, chegando, por vezes, a dar o que eu nem peço.
Ele é fantástico!!!
As minhas vizinhas não acreditam no Pai Natal, porque ele nunca deixou lá nada, mas eu expliquei que elas tinham de enviar uma carta, caso contrário, ele não saberia o queriam receber.
Uma amiga lá da turma disse-me que os pais arrumam as prendas no guarda-fato ou debaixo da cama.
Eu fui lá ver!
Confesso que estava um pouco ansiosa… mas como era de calcular… não estava lá nada!
Naquela altura, eu andava à procura de pistas por toda a casa e nada encontrava.
A minha mãe brigava porque eu desarrumava as gavetas todas…
Lembro-me de estar no meu quarto e muito atenta aos sons, a ver se ouvia o barulho das renas.
Costumava, também, estar por detrás da janela, a olhar para o céu…quase que o via passar, lá ao longe, no trenó!
Eu sonhava…eu sonhava, vê-lo passar mesmo em frente à minha janela,
Era o mais queria!!!

Mas ainda bem que ele nunca passou!
Não sei o que faria!
Talvez me pusesse a correr eufórica e a gritar que o tinha visto!
Nas noites de Natal, eu e o meu irmão púnhamos o nosso respectivo sapato junto ao presépio e saíamos de casa todos juntos para irmos à missa do galo.
Durante a missa eu só pensava nos brinquedos e na possibilidade do Pai Natal se esquecer de nós.
Sim… a minha casa era sempre a última por onde o Pai Natal passava a deixar as prendas…
Eu sabia que podia acontecer, de tão cansado que o Pai Natal estava.
Ao regressarmos, vínhamos todos juntos também, ou seja, não eram os meus pais a colocar as prendas na árvore.
O Pai Natal nunca se esqueceu de nós!
É tão mágico o momento de chegar a casa e ver o presépio rodeado de presentes!!!!
A sério… eu não percebo porque é que dizem que não HÁ Pai Natal!!
Eu já o vi…. As minhas amigas, não… mas ele até já esteve lá em casa. Até tenho fotos com ele…

É verdade, eu até já o vi na televisão… no telejornal… na sua casa na Lapónia.
Eu vejo sempre o telejornal até ao fim…para poder vê-lo junto à sua lareira acesa. Lá faz muito frio!!!
Portanto, ele existe! Ele aparece no telejornal!
Eu sei que existem pessoas que se vestem de Pai Natal…nas festas das escolas…dos serviços dos pais… mas isso é porque o Pai Natal não pode estar em tanta festa… ele está ocupado a fazer os brinquedos!!!
Como é que não há Pai Natal?
Claro que há!
Mas eles são tantos contra mim… que decidi, de uma vez por todas, tirar as minhas dúvidas.
Foi então que escrevi uma carta ao Pai Natal, sem que ninguém soubesse o que queria receber.
Se as prendas fossem as que tinha pedido, então é porque existia Pai Natal, definitivamente!
Lembro-me de escrever a carta sozinha… até pedi desculpa por algum erro que poderia haver.
O meu pai disse-me para colocar o meu nome no envelope… não vá o Pai Natal deixar de o abrir por não saber que era a minha carta.
O meu pai explicou-me que havia meninos que não se portavam bem e depois não recebiam prendas… e seria boa ideia por o nome para ele não se esquecer de mim.
Então, escrevi o meu nome bem legível… e fomos levar, à noite, a carta ao Pai Natal.
Ele estava todos os anos…. no Dia das Montras, na Papelaria Lusitânia… em frente à Loja da Preta.
Eu tinha tanto medo de o ver, mas gostava muito de lá ir!!!!!
Dias mais tarde, recebi uma carta tão gira do Pai Natal… a informar-me que lamentava, mas o jogo das pulgas estava esgotado naquele ano e se eu queria pedir outro jogo… Tão querido que ele é!
Vêem, ele existe!!!!
Ele enviou-me uma carta a explicar o que se estava a passar…
Naquele Natal, ele ofereceu-me a boneca da barbie, a mala da barbie e o carro da barbie. Tudo o que eu tinha pedido sem que ninguém soubesse.
Não tive mais dúvidas… o Pai Natal existe mesmo!!!!
É bem mais fácil alguém nos retirar a capacidade de acreditar, mas quem nos faz acreditar novamente, fá-lo com muita força!!
Um ano mais tarde, estava eu na escola e a minha professora disse-nos: “Vocês agora já são crescidos… já nem acreditam no Pai Natal, por isso, têm de se portar como gente grande”…
Fui para casa, contei aos meus pais o que a professora tinha dito e acrescentei que não valeria a pena arranjarem mais desculpas, porque eu já não ia acreditar…
A verdade… é que eu queria que eles arranjassem uma desculpa para toda aquela confusão… eu…. eu não queria crer que a minha professora dizia a verdade…
Anos mais tarde, enquanto remexia nuns documentos, encontrei uma carta com letra bem visível a dizer:
Da Marlene
Para Pai Natal
Era a carta que eu tinha escrito…
O meu pai, sem eu saber, no dia seguinte ao das montras, tinha ido à papelaria procurar a minha carta, no meio das tantas outras!!!
Não era para acreditar que existia Pai Natal!!!!!